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11 janeiro 2012

Dona Dores - Gigliola Cinquetti "Non ho L'eta"


A Dona Dores é uma senhora na casa dos oitenta e muitos anos, um doce de senhora. Sofre de cancro nos ossos. A qualquer momento qualquer osso se pode partir como se os ossos fossem como os fios de esparguete.
A nível da cabeça a senhora Dores tem momentos de grande lucidez e recorda-se de tudo e tem consciência de onde está. Noutras alturas, ela pensa que está na sua casa em Lourenço Marques, onde vê o seu amado a passar no outro lado da rua, enquanto ela trata das flores. São rosa amarelas, a senhora Dores adora rosas amarelas.

A senhora Dores era uma rapariga muito bonita, porque tinha o cabelo preto e muitos caracóis naturais. Tinha 16 anos, quando conheceu o amor da sua vida. O pai era militar. Um dia houve uma festa de militares, e a senhora dores viu um homem mais velho, casado com filhos da idade dela. O dito militar era muito amigo de seu pai.

Durante aquela festa, houve uma troca de olhares entre os dois. A Dores não passou despercebida ao militar amigo de seu pai.

O militar começou a frequentar mais vezes a casa do seu pai, com o pretexto de ver a menina Dores. O Amor nasceu com o olhar, começou a crescer com o chá e com a bolachas, até que o inevitável aconteceu...
A senhora Dores engravidou e foi o maior escândalo entre as duas famílias.

Todos diziam que o militar deveria ter juízo, que já era um homem com filhos e que agora andava a mostrar a todos o que se designava pelo o "último grito do Cisne". Ou seja, um homem de meia idade que andava com uma cachopa só para dizer que ainda tinha tesão...

A ela, à senhora Dores, chamavam-lhe tudo desde puta para baixo(o que me chamariam a mim!!!! LOLOLOL Só para aliviar um pouco este post)...

As ameaças dos filhos do militar, da mulher do militar, dos próprios pais. Que ela era uma oportunista, que na realidade a gaja queria era o dinheiro do homem e para mais, ele tinha idade para ser pai dela...

O militar também dizia que a amava muito, mas ele queria que ela fosse abortar. Ela recusou fazer o aborto. Dizendo: "Posso perder o pai do meu filho, mas o filho é meu..."

A criança nasceu morta. Foi o maior desgosto da senhora Dores. Com o 25 de Abril, a senhora Dores veio para Portugal, trabalhou numa creche como auxiliar. Nunca mais voltou a casar ou sequer a ter outro homem...
Como devem calcular esta senhora desde que entrou para o Lar, nunca teve uma visita de alguém de fora...

10 janeiro 2012

Dona Fernanda - Kelly Clarkson "Because of you"



A Dona Fernanda é uma senhora dos seus 86 anos. Uma senhora sempre sorridente, apesar de ter 5 filhos, não sei quantos netos(nem ela sabe)...
A Dona Fernanda foi uma senhora que nasceu nas Beiras. Aos 16 anos foi prometida a um homem mais velho, com quem casou e teve cinco filhos.

Em Moçambique tinha uma boa vida, pois tinha uma casa enorme com não sei quantos quartos e não sei quantos empregados. Ela sabia fazer muito bem o croché e que mantém até aos dias de hoje, essa sabedoria.

Após o 25 de Abril, e com a Independência do país, regressou a Portugal apenas com a roupa que trazia no corpo e os seus cinco filhos. Para trás, ficou o marido, os criados, os diamantes e dinheiro ao fundo da fazenda. Mesmo por baixo de uma árvore, pode ser visto um "sinal" de uma cruz, feita por dois ramos da árvore(já viram os anos que passaram?)...

Em Portugal, vivia num T1, com os seus cinco filhos. O marido nunca mais o viu. À medida que os filhos iam casando, saíam de casa e não voltavam mais...

A senhora trabalhava como modista, e agora a única pessoa que a visita duas a três vezes por ano, é uma antiga funcionária...

4ª Narração - Cherona "Sound Of Africa (Heyama)"


Volto a referir que eu não estive na Guerra Colonial, a partir deste momento irei apenas narrar histórias de pessoas que viveram em África e que tiveram de voltar a Portugal, uns só com a roupa no corpo e com os filhos ao colo, outros com um pouco mais...
A maioria destas pessoas viveram em Angola ou Moçambique.
Um coelho, irei falar da minha vida como voluntariado, das histórias que eu recolhi no lar onde sou voluntário. Apenas, tenho deixado um pouco de lado o "Mundo do Voluntariado" por dois motivos:
1º - Alguns idosos tem morrido e custa-me imenso voltar a uma sala, onde eu aprendi imenso. Agora, apenas resta o seu lugar vazio...;
2º - Os auxiliares não entendem como alguém pode ser voluntariado, os donos dos lares, pensam que nós somos empregados sem remuneração...

Quando acabar as histórias da Guerra Colonial, irei falar nas histórias mais esotéricas, muitas delas narradas pelas mesmas pessoas, inclusive pelo senhor que "via" a nossa alma através dos nossos olhos.

Aos mais cépticos, apenas posso dizer: - Até Fevereiro :)

I didn´t have a farm in Africa, but I lived there...

21 setembro 2011

Alzeimer - Celine Dion "Je Ne Vous Oublie Pas"

Verdade, hoje é o dia do Alzeimer. Uma doença descoberta há poucos anos. Sim, porque antes as pessoas não viviam tantos anos, nem tinham profissões tão sedentarizadas.

Já aqui referi que faço voluntariado num lar, onde faço companhia a pessoas com Alzeimer. Para quem não sabe, existe vários tipos de Alzeimer:

A) Existem pessoas que com Alzeimer, pararam no tempo. Numa fase boa ou má da sua vida. Pode ser durante a juventude, e pensam que ainda vivem com os pais. Não tem noção que a vida continuou para eles, que casaram, tiveram filhos, netos...

B) Existem pessoas que não recordam onde estão. Mas que não esqueceram os filhos, os netos, lembram-se da rua onde cresceram, do dia do casamento, mas que não sabem que estão num lar...

C) Outras pessoas com Alzeimer, perderam a memória total. Só choram, riem, vivem uma história que leram algures num livro, ou em alguma novela. Perderam a noção total da sua vida e já nem reconhecem os filhos, netos...

D) Pessoas que não se lembram de nada, mas que não esqueçeram como jogar uma boa sueca(jogo de cartas)...

E) Outras pessoas, andam entre a alinha A, B, C e D...

A grande maioria das pessoas que sofrem de Alzeimer, eram pessoas que foram assistentes administrativas, modistas, educadoras de infância e algumas professoras. Muitas destas pessoas tiveram algumas depressões ao longo da vida.

P.S - Muitas destas pessoas tem "rasgos" de conciência e da realidade por breves segundos, muitas vezes ouvi frases destas:

- O que estou aqui a fazer? Sinto-me como um pássaro numa gaiola;
- Francisco, o menino é uma joia de pessoa;
- O meu filho não vem me visitar há mais de 5 meses;
- Etc, Etc

11 julho 2011

Relações Humanas - Celine Dion "The Power of Love"

Desde que o SER Humano começou a viver a pares, começaram as primeiras relações humanas. Mais tarde, Lá se foi agrupando em grupos como forma de protecção e de poderem caçar presas maiores. Começaram a construir casas, aldeias, vilas, cidades...
Há medida que o Ser Humano ía inovando e descobrindo novas tecnologias, mais depresa começou a Desumanizar os mais fracos através das guerras, da escravatura etc etc, sendo aos dias de hoje ao nível da pressão psicológica.

No passado Domingo, lá fui eu fazer voluntariado. Estava eu sentado no sofá a falar com a D. Gestrudes, uma idosa super simpática apesar de já não ter ninguém para a visitar. Estava-me a contar a vida dela: Onde nascera, onde crescera, como começou a namorar, o dia do casamento, o casamento como fuga de casa dos pais, o nascimento do primeiro filho, os outros filhos(4 no total), o nascimento dos netos(8 no minimo). Ali estava aquela senhora "sozinha", sem um único familiar que dispense 5 minutos para a ir visitar, quer seja num dia de semana ou de fim-de-semana.

Começa a hora das visitas e lá começam a surgir as primeiras "pérolas" de Domingo:
PRIMEIRA (Não se riam, é para chorar mesmo...)
Chega um casal com duas filhas que vão ter com a D. Alice. Uma senhora dos seus oitenta e poucos anos, que teve uma vida super dura, mas muito recta "pão, pão; Queijo, queijo".

D. Alice: - Olha! As minhas netas lindas. Vieram visitar a avó?
Homem(genro): Pois! A sua filha não quis ir à festa dos Tabuleiros...
D. Alice: - Deixa! Vão lá para o ano. Então as minhas netinhas passaram de ano com boas notas?
Miuda mais velha: - Óh Vó! Para que eu quero boas notas!?
D. Alice: - Para seres uma grande estudante e um dia teres um bom emprego...
Miuda mais velha: Vó! O pai passa o dia em casa, passa a vida no subsidio de desemprego. Quando eu crescer vou fazer o mesmo...

Segunda
Estava uma senhora com o filho mais velho(doze/treze anos), ao lado do Senhor Pedro, um senhor de setenta e muitos anos e um bem disposto.
Pedro: - Olha o meu neto preferido! O teu pai, não veio? Está a trabalhar?
Rapaz: - O pai João?!
Pedro: - Não! O teu pai é o Zé!
Rapaz: - Quem é esse? Já tive o pai Francisco, não gostei dele porque me batia. Depois a mãe trouxa o pai Tiago, desse já gostei um pouco mais. Gostei muito do pai Eduardo. Jogava à bola comigo. Só lá esteve um mês em casa. O pai João, é um tipo fixe, mas chega a casa todos os dias bebado...
Pedro: - Milha filha! Quantos filhos tens?
Rapaz: - 8. Ela diz que contribui para a sociedade com miudos, por isso é que vamos de tempos a tempos à segurança social buscar os apoios...
Filha: - Pai! Se vamos discutir a minha vida, vou-me já embora.

TERCEIRA - A próxima história doi mesmo.
Reparo num rapaz ao fundo da sala, muito bem parecido. Com um corpo fantástico. Num perfeito estado normal de normalidade e que não deve ter mais do que 33/34 anos. Aparece um casal de homens na casa dos cinquenta e muitos/ sesenta anos e numa fulana bem parecida.
Ao inicio pensei que estivem à espera sentados, para poderem subir aos quartos dos acamados. Não dei muita importância. Até que vejo uma funcionária ir ter com o rapaz, colocar-lhe uns comprimidos na boca. Passado algum tempo, vejo a rapariga a tirar uns papeis de uma pasta. Depois coloca-os em cima de uma mesa. O Rapaz começa a assiná-los. Depois dos papeis assinados, a fulana levanta-se e vai-se embora. O casal faz mais um pouco de companhia e vão embora de seguida. Fica ali o rapaz sentado na mesa a olhar para um vazio qualquer...

Levanto e dirigo-me para a funcionária e fui perguntar à D. Maria.

Francisco: - D. Maria! Quem é aquele rapaz? E, o que faz ele aqui?

D. Maria: - Francisco! O menino nem queira saber. O rapaz chama-se Rodrigo. Um moço que foi um bom técnico de manutenção de máquinas frigorificas. Há dois anos, apareceu-lhe os primeiros sintomas de Parkison. O Rapaz acabou por ser despedido. A mulher veio aqui agora com os papeis do divórico. Os pais colocaram-no aqui, porque supostamente estão reformados e querem gozar a reforma a viajar.
Como o filho está doente, não o querem em casa.

Francisco: - Ele está assim tão doente!!!!!!!!!!!!

D. Maria: - Só quando não toma a medicação. Aqui no lar, como a toma todos os dias. Já não treme tanto como antes.

Francisco: - E de cabeça?

D. Maria: - Esquece-se de algumas coisas. Eu acho que me esqueço mais do que ele...


Sem Palavras para expressar qualquer sentimento ou emoção

P.S - Sapo, foi esta a musica em relação ao post anterior "Mário Santos/Diogo".

05 junho 2011

Destino/Sina - Agata "Escrito no Ceu"

É verdade que tenho falado muito pouco acerca da minha vida sentimental nestes últimos tempos. Talvez porque a minha avó dizia muitas vezes "Gato escaldado, de água fria tem medo".
Não digo que não, que talvez por me ter "atirado" de cabeça na relação com o Gonçalo e ter dado com os "burros na água", ter caido e partido o "focinho" entre tantos outros provérbios...
Eu tenha decidido ir com muita calma e muita tranquilidade com a minha relação afectiva, fica prometido que um dia escreverei acerca disto. Por agora continua a ser cedo de mais. É muita coisa junta, muita quimica, muita vontade de estarmos juntos, nunca fui tantas vezes a Cascais, como nestes últimos tempos...
Antes fazia a A5 até às bombas da Galp, aos dias de hoje, pois passo a portagem em direcção a Bicesse. Mais não digo...

Hoje, começei a fazer voluntariado num novo lar. Muito calmo, muito tranquilo. Tive o prazer de começar a falar com pessoas com histórias de vida, fantásticas. É um lar para pessoas de baixa escolaridade e com muito poucos rendimentos. Enfim, creio que todas delas, tenham muitas histórias para partilharem comigo, que depois partilherei com todos vós.

Francisco: - Então como se chama o Senhor?

Senhor de cadeira de rodas e já com muitos poucos dentes: - Sou o Zé! Porquê?

Francisco: - Então e o que o trouxe até este local tão simpático?

Sr. ZÉ: - Os meus filhos, não me podem ter lá em casa. Agora sou um empecilho...

Francisco: - Não diga isso! O que fazia antes de vir para aqui?

Sr. Zé: - Das 9h às 16h era varredor de ruas. Depois fazia uns "trabalhos". Era bruxo...

Francisco(ar surpreso) - Ah! Sim, então e não me quer ler as linhas da mão?

Sr. Zé - Eu vejo através dos olhos das pessoas. Vejo a alma do ser humano...

Francisco: - E o que pode dizer acerca da minha?

Sr. Zé: - Viva essa paixão, mas não se iluda. Não vai haver divórcio. Faça as pazes com o passado, mas também não volte à relação terminada. Francisco! Se está aqui é por algum motivo do Universo. Qual??? Não lhe posso dizer por agora. Apenas esteja atento a tudo a seu redor. Está para breve...

O Sr. Zé foi descansar e eu fiquei com um milhão de perguntas para fazer...

26 março 2011

Gonçalo - Cock Robin "The Promise You Made"

Ontem à noite o Gonçalo veio cá dormir a casa. O tema das "chaves" ainda não surgiu. O único tema que surgiu entre nós, foi a possibilidade de termos uma vida em comum. Ou seja, a possibilidade de um dia arrendarmos uma casa a meias. Ao longo destas poucas semanas que o Gonçalo tem ficado cá em casa a dormir, nunca me pediu as chaves de casa e muito menos comentou a decoração da casa. Ao contrário de muitos outros que a primeira coisa que faziam, mal colocavam os pés dentro de casa, comentavam o espelho, a disposição da sala, a cor da parede do fundo da sala(cor de sangue de boi, para quem não conhece é um pouco mais escuro que o tradicional bordeux).

Hoje, eu tive que ir trabalhar 4 horas, para ganhar mais uns trocos. De manhã ao acordar, o Gonçalo comentou: - Posso ficar a dormir mais um pouco?

Francisco: - Claro que sim! Deixo-te as chaves em cima do móvel de entrada. Depois de tomares banho, podes vestir cuecas, meias, calças, polo ou camisa. Procura dentro das gavetas. Se quiseres deixa aí a tua roupa, que assim já tenho uma "máquina" de roupa para mais logo.

Gonçalo: - Posso usar a tua roupa?

Francisco: - Claro que sim. Está lavada e passada a ferro. Qual é o problema?

Gonçalo: - Adoro-te!

Puxou-me para um abraço, demos um beijo, depois outro e mais outro e entregámo-nos ao suor um do outro. Fui trabalhar e ele ficou na cama...

Na hora do almoço, envio-me um sms a dizer que já tinha saido de casa. Que ía almoçar a casa dos pais, e que nos encontrávamos mais tarde no lar, onde eu faço voluntariado. A avó dele, já lá é residente. Daqui pouco, já estou casado e nem conta disso...

13 março 2011

Sábado - André Sardet "Foi feitiço"

Tantas coisas que acontecem apenas num dia. Já dizia a minha avó: "Um rico diz que 24 horas é pouco; enquanto que um pobre diz que 24 horas são uma eternidade"

PRIMEIRA PARTE
O Gonçalo chegou cá a casa, por volta da 1 da manhã. Logo já conta como Sábado...
Realmente entre nós os dois existe um química fantástica...

Claro que foi muito bom, poder depois adormecer abraçado...

SEGUNDA PARTE
Na manhã de Sábado, acordei ao toque de beijos e carícias. Que saudades que eu já tinha de ser acordado desta forma.
Quando desperto, qual o meu espanto! O Gonçalo tinha feito o pequeno-almoço e levou-o até à cama. Uhau!!! O miudo esmerou-se no pequeno-almoço.

Claro que depois do pequeno-almoço, entregámo-nos ao suor um do outro...

TERCEIRA PARTE
O Gonçalo ofereceu-se para fazer o almoço. Ele gosta imenso de cozinhar. Diz ele que aprendeu com a avó...

Francisco: - És estudante de Cozinha?

Gonçalo: - Nada disso, aprendi com a minha avó paterna. Ela sim! Foi em tempos uma grande cozinheira. Só que agora está num lar. Começou a perder a memória, e por vezes tinha ataques de euforia e fugia de casa. Os meus pais optaram por a colocar num Lar.

Francisco: - Costumas ir visitá-la ao Lar?

Gonçalo: - Nem por isso. A última vez que lá estive, ela não me reconheceu. Mas, um dia quero lá ir. Custa-me ir sozinho...(O rapaz estava com um ar mesmo triste ao falar na avó).

Francisco: - Eu posso ir lá contigo. Queres lá esta tarde? antes de irmos jantar a casa da tua irmã...

Gonçalo: - Adorava! Vais lá mesmo comigo?(um sorriso e um ar de alegria nasceram naquele rosto).

QUARTA PARTE
O Gonçalo fez uma torta de Laranja em pouco mais de meia-hora. Depois seguimos no meu carro até ao Lar, onde está a avó.

O Lar fica numa vivenda. O espaço é agradável. Alguns idosos estão num sofá a olharem para a televisão ligada. Outros estão sentados em cadeiras de rodas. Realmente quem entra no espaço, parte de fora "enche a vista". Mas, lá dentro, nem por isso.
Quem faz voluntariado num espaço mais alegre, tem outra percepção da realidade, porque existe o termo de comparação.

O Gonçalo pára a meio do caminho. Parece que as pernas não o deixam continuar. Ele faz-me sinal de quem é a avó. A senhora está a dividir um pequeno sofá com uma outra senhora. Aproximo-me, sento-me ao pé dela e digo:

Francisco: - Olá! Boa tarde, está boazinha? Como se chama?

Avó do Gonçalo (Muito Admirada): - Eu!!! O meu nome é Alice. Estou bem, quem é o senhor?

Francisco: - Sou o Francisco, amigo do Gonçalo, do seu neto...

D. Alice: - O meu neto tem 10 anos. Está em coma. Por isso é que eu estou aqui presa...

Francisco: - Então! Já não se lembra do seu neto? Uhm!!! Não acredito... Pense lá um bocadinho e olhe para este rapaz que está aqui ao meu lado...(O gonçalo tinha puxado uma cadeira e tinha se sentado mesmo ao meu lado).

D. Alice: - É um rapaz muito bonito. Tem uns olhos lindos. O meu filho é que tem também assim uns olhos azuis. Sabe que o meu filho casou com uma rapariga, que agora é uma senhora. Tiveram 3 filhos. Duas meninas e um menino.

Francisco: - E, lembra-se dos nomes deles?

D. Alice: - Claro! O meu filho chama-se Rogério. A mulher chama-se Leonor. As meninas: A mais velha é a Sandra e namora com o Pedro(A senhora não sabe que já se casaram porque não foi ao casamento). A outra menina chama-se Mariana.

Francisco: - Então e o menino?

D. Alice: - É o Gonçalo. O rapaz mais bonito que eu já vi até hoje. Não desfazendo que ele é meu neto. Um rapaz lindo! Sorte da rapariga que casar com ele. Ele é muito prendado na cozinha. Fui eu que lhe ensinei a fazer tudo. Pena foi ele ter sido atropelado(começa a chorar)...
Ele ía de mão dada comigo para a escola, fugiu-me da mão e foi para a estrada. Veio um carro e atropelou-o. O carro vinha muito devagarinho por haver uma escola perto. Uma escola de crianças. Agora estou aqui. O meu filho e a minha nora, nunca mais me vieram visitar, porque dizem que o menino morreu por minha causa...

Francisco: - Eles tem vindo cá todos os fins de semana. Não se lembra?

D. Alice: - Tem vindo?

Francisco: - Sim! Olhe para este rapaz. É o Gonçalo, o seu neto...

D. Alice: - Estás tão crescido! Senta-te aqui ao pé da avó e conta-me tudo. Namoradas! Tens? Escola! Estás em que classe?

Uma coisa muito importante que aprendi ao longo deste tempo que faço voluntariado:
As pessoas que não se lembram de nada, porque sofrem de alzeimer ou por outra questão de neurologia, não podem ser questionadas mediante pressão verbal. Devemos começar com perguntas simples: Como se chama? Nomes de filho/as? Nomes de netos?...

Peguei na avó do Gonçalo, na senhora que estava ao lado. Fomos os 4 para uma mesa jogar dominó e cartas. O Gonçalo estava radiante...

Na hora do lanche, quando o Gonçalo deu uma fatia da torta de laranja à avó, esta depois de a ter provado comentou:

D. Alice: - Uhm!!! Que saborosa! Foi a receita que a avó te deu?

QUINTA PARTE
Quando saimos do Lar, o Gonçalo vinha com um ar de felicidade. Ele estava super contente.
Decidimos ir ao Centro Comercial das Amoreira, à loja da "Àrea". O Gonçalo queria comprar uma jarra para a irmã (creio que uma troca de prenda de Natal atrasada).

É verdade que o Gonçalo é um rapaz muito atraente. Para além de ter olhos azuis. O rapaz pratica Ténis e Natação. Como tal tem um corpo definido, com a particularidade de ter um bom: Rabo, Cú, Pacote, Bilha o que lhe quiserem chamar...

Estávamos na Àrea, reparei que muitos rapazes e raparigas olhavam para o "rabo" do meu gajo. Uns mais descarados do que outros. A realidade é que enquanto uns só podem visualizar, eu posso visualizar e tocar... LOL

Enquanto o Gonçalo andava a procura da jarra de substituição, passamos mesmo ao lado do Ruben. Este estava acompanhado por dois amigos. Notei que os três estavam a "galar" o traseiro do rapaz...

Ruben: - Olá Francisco! Tudo bem?

Francisco: - Olá! Tudo bem contigo?

Ruben: - Que fazes por aqui? Andas à procura de alguma coisa para a casa?

Francisco: - Ando a passear...

Ruben: - Sabes que agora eu estou solteiro!

Despedimo-nos com um aperto de mão. O Gonçalo não me perguntou nada, não fez nenhuma cena de ciúmes.

SEXTA PARTE
Em casa da irmã, estava a familia toda. Os pais, as irmãs e os respectivos companheiros. O jantar correu lindamente. Todos muito simpáticos. O Gonçalo falou da nossa ida ao Lar ver a avó...
A familia ficou a saber que o nosso conhecimento é recente. Que nos conhecemos na noite de Carnaval...

Fizeram um questionário de policia e no final a mãe do Gonçalo comentou:

Mãe: - Gonçalo! Se vais dormir a Odivelas, quem é que me prepara o meu pequeno-almoço nos fins de semana?

Cunhada do meio: - Mãe das duas uma! O Francisco vem cá para casa, ou arranjas um amante como o Francisco. Que eu ainda vou procurar um igual...

Durante o jantar, informei que trabalho numa empresa de elevadores. E disse que trabalhava em part-time numa agência de viagens. Que no próximo fim-de-semana vou a Marrocos, mais concretamente a Marraquexe. Que gostava que o Gonçalo me pudesse acompanhar. Ele só pagaria as taxas de aeroporto(não posso dizer que está tudo incluido).

20 fevereiro 2011

D. Amélia - JACQUES BREL "NE ME QUITTE PAS"

Hoje de manhã acordei e fui até ao Lar. Como acordei super cedo, aproveitei para ir mais cedo, e assim, poder ajudar no pequeno-almoço.


Lá estava a D. Amélia a contar os seus versos. A senhora tem 86 anos e inventa versos com uma facilidade do caneco. Basta dar-lhe um tema e aguardar um pouco e sai um destes versos

Sou um homem muito pobre,
não tenho um único real,
Se tivesse 5 tostões,
era Rei de Portugal

Se tivesse 5 tostões!5 tostões, nada mais,
comprava muitos olivais
Isso é que era coisa boa,
Comprava toda a Lisboa

Se tivesse 5 tostões,
Mas sou um homem muito pobre,
Não tenho um único real.
Se tivesse 5 tostões...

Era Rei de Portugal


D. Amélia: - Onde pára o António? Nunca mais o vi por aqui. Que moço tão alegre e bem disposto. Sorte de quem lhe prender o coração...

Francisco: - Ele está a trabalhar na Austrália...

D. Amélia: - Isso é Longe? Eu nasci na bela ilha da Madeira. Em moça fui para Angola com os meus pais. Lá casei e depois do 25 de Abril, vim para Portugal...

Francisco: - É no outro lado do Mundo...

D. Amélia: - É onde eles são amarelos? E andam com a cabeça para baixo(entre risadas estava a comparar aos chineses e que no outro lado do mundo devido à posição do planeta, as pessoas tinham a cabeça para baixo.)

D. Amélia: - Quando volta o António? Quero lhe dar um beijo antes de morrer...

Francisco: - Creio que no Verão, ele estará cá.

D. Amélia: - Já não o voltar a ver com estes olhos. O Cancro já está demasiado avançado...

Depois fechou os olhos e começou a cantar a música acima menciona "Ne me quitte pas"

Quando cheguei a casa, li este e-mail enviado pelo António:

DICIONÁRIO INGLÊS - MADEIRENSE

CAN'T
Significa que não está frio
Exemplo: O café está can't.

CAN
Usado por quem sofre de amnésia
Exemplo: Can sou eu?

TO SEE
Onomatopeia que representa tosse
Exemplo: Eu nunca to see tanto na vida.

CREAM
Significa roubar, matar
Exemplo: Ele cometeu um cream.

DARK
Significa generosidade,dar
Exemplo: É melhor dark receber.

ICE
Expressão de desejo
Exemplo: Ice ela me beijasse!

MAY GO
Pessoa dócil, afável
Exemplo: Ele é muito may go!

MONDAY
Vocábulo usado para ordenar
Exemplo: Ontem monday lavar o carro.

MUST GO
Significa mastigar
Exemplo: Ele colocou a pastilha na boca e must go.

NEW
Sem roupa
Exemplo: ele saíu de casa new.

PART
Lugar para onde mandamos as pessoas
Exemplo: Vá para o raio que o part!

PACKER
Prefixo que indica bastante
Exemplo: Eu gosto dela packer-amba!

PAINT
Artefacto para pentear o cabelo
Exemplo: Empresta-me o paint !

RIVER
Pior que feio
Exemplo: Ele é o river.

10 novembro 2010

Dia no Lar - Lara Fabian "Immortelle"

Quando chegámos ao Lar, somos informados que três senhoras que estavam hospitalizadas, acabaram por falecer. Duas delas, devido à idade avançada, a terceira devido a vários tumores pelo corpo(cancro mesmo).

O astral do António, desde mesmo. É notório. Engraçado!(mas, não tem piada nenhuma). O António, não consegue esconder a sua dor. Ele dirigi-se para a casa de banho, e eu não o acompanho. Só o volto a encontrar na hora do almoço...

É realidade, naquele lar, ninguém morre sozinho. Quando morre alguém, morre sempre mais uma a duas pessoas...

Paz às suas almas...

Durante a hora do almoço, o tema é "Vida depois da morte".

Cada um deu a sua opinião. Ouviu-se as mais diversas teorias, mas de todas as teorias, e a mais inesperada, foi quando o António falou:

António: - Não acredito em nada disso. Acredito em DEUS, porque fui educado segundo as leis da igreja católica. Acredito é que podemos ser mais, ou, menos humanos. Isso, depende da consciência de cada um...
Respeito as "teorias" de cada um, pois ainda vivemos num País livre. Digo eu...
Ninguém me colocou num corredor da morte e mais tarde, descobre-se que afinal o dito "filho da mãe" estava inocente...

Acredito que o António, esteja zangado e muito zangado com alguma coisa. Mas, aquele rapaz que traz sempre consigo uma "Luz", uma "Energia", o que seja...
Coloca sempre a mão no ombro das pessoas, como se estivesse a fazer "Reiki". Passados alguns minutos, é visível que as pessoas tocadas por ele, estão mais alegres, mais "vivas". Não sou o único a acreditar nisso, mas sim todas as funcionárias. Existem funcionárias que afirmam que o António deve ser um "Cristal"...
Cristal, significa no "mundo das energias": Alguém capaz de curar com as mãos...

Durante a tarde, recebo um sms do Pedro:

Pedro: - Olá Principe, queres ir jantar mais logo? Podemos ir a um chinês, sempre é mais barato.

25 outubro 2010

Comentários no post - O Avô Cantigas "A Cantiga do avô cantigas"

Num post anterior, O Blog Liker pergunta-me: Se eu nunca saio de "Cabisbaixo".
Blog Liker, muitas vezes, muitas vezes mesmo...
O Pinguim diz que eu saio muito enriquecido;...
Pinguim, saio todos os dias enriquecido e dou Graças a Deus pelo que tenho.

Mas, vamos por partes:

A) Eu começei a fazer voluntariado, por uma sugestão de uma amiga. A Flôr, que frequenta um centro esotérico e que está muito ligada a estas "coisas" metafisicas...
Ela afirma, que uma pessoa ao fazer voluntariado, isto é, que esteja a ajudar o outro e sem qualquer interesse em troca. "Ajuda" a limpar o nosso "Karma"...

Confesso que não sei, se limpo alguma coisa. A realidade, é que aceitei este desafio, ou seja, ter ido fazer voluntariado, por dois motivos:

1º Como já perdi a minha avó e a minha mãe. Talvez, isto explique qualquer coisa. A minha dedicação àqueles idosos. Todos eles poderiam ter sido os meus pais, avós e em alguns casos, mesmo bisavós.

Já diz o ditado: "Dá Deus nozes, a quem não tem dentes"

2º Sim, é verdade que eu acredito na vida depois da morte. A Re-encarnação, para mim é algo que é normal. Não me faz sentido, estarmos uma vida inteira a sofrer e a ter prazer, para depois acabar tudo.

B) Ao iniciar o voluntariado, começei a ganhar maior perpecção de que os "Ditados Velhos, são Envagelhos"

Nunca, podemos esquecer que os velhos(velhos são os trapos), não são criancinhas indefesas e que muitas nem chegaram a conhecer o mundo. Muito pelo contrário, são pessoas com muito conhecimento e cada um com a sua história de vida. Muitos, podem não ter a escolaridade obrigatória, mas TODOS tiveram a escola da vida.

São pessoas que nasceram, creceram, algumas casaram, outras não. Outras tiveram filhos, outras nem por isso. Outros tiveram netos e outros, também nem por isso...
Mas, TODOS eles, tiveram alegrias, tristezas, mágoas e todos tem a sua história para contar, para quem quiser ouvir...

Uns tem uma história real. Outros devido à sua doença, tem um parágrafo de um determinado momento da sua vida ou de um parágrafo de um livro.

A realidade, é que todos eles tem esta noção: - Sou como um pássaro fechado numa gaiola. Como, bebo, durmo, vejo o mundo por uma janela, canto a minha dor e espero assim a minha morte.

Alguns sentem que as suas "asas" ainda os poderiam ajudar a voar livremente. Mas, a realidade é mais cruel. Estão presos numa cadeira de rodas, a cabeça só funciona por um excasso momento, ou ainda o familiar não permite a sua saída...

Neste lar estão internados cerca de 45 idosos, mais 14 idosos que usam o centro de dia. No fundo, estão lá das 9h às 17h30 e depois vão dormir a casa. Para não passarem o dia sozinhos em casa, vão até lá e recebem um pouco de atenção.
Este pouco de atenção, pode ser dois minutos de conversa, para o idoso ficar feliz o dia todo.

Quando estou no Call Center e oiço pessoas a comentar que não sabem o que fazer num Sábado à tarde, que ficaram horas à espera de um telefonema...
Se soubessem, o quanto poderiam ser úteis, nesses minutos...

Há uns tempos atrás, o Blog Liker fez um post interessante acerca de comprimidos para as depressões. Muito interessante mesmo...

A verdade é que eu perdi a minha mãe, emprego e um relacionamento de alguma duração. Creio que cada item, dava para ter uma depressão. Não sei se a tive. Mas, se a tive, nem eu, nem ninguém deu por isso...

No lar, está internado o senhor Mário. O senhor Mário tem 82 anos e está sempre com um sorriso nos lábios e a contar anedotas. Cada uma mais picante que a outra. Mas, todas muito engraçadas. Está perfeito da cabeça, tem a noção de toda a realidade à sua volta. Não precisa de cadeiras de rodas, nem de muletas, e tem uma mobilidade muito boa, para os seus 82 anos.

Devem estar todos a perguntar, como um dia eu lhe perguntei: - O que está a fazer esse senhor no lar?

Senhor Mário: - Meu filho, melhor meu neto. Tenho um cancro maligno na cabeça. Já fui operado por diversas vezes. É uma questão de tempo. Está a ver este vermelho todo em volta do pescoço? É cancro da pele e dá cá uma comichão. Tomo um comprimido para a quimioterapia todos os dias. Mas o mais lixado , disto tudo são os meus ouvidos. São cá umas dores de ouvidos...
Mas, não são tão fortes, como quando estava em casa. Casei e tive seis filhas. Porra que galinheiro. Nunca te cases. Vai por mim. Eu casei as todas e quando pensei que iria ter paz. Voltaram as 6, mas divorciadas e com encomendas...

O senhor Mário, acorda de manhã. Faz a sua higiéne pessoal sozinho. Desce para tomar o pequeno-almoço e depois vai fazer a sua oração à capela. Na sala, joga cartas, xadrez, damas, dominó. Adora falar da sua infância numa aldeia perto de Viseu, da guerra do ultramar, a dificuldade de criar 6 filhas...

Reflexão: Estou bem, tenho cancro. Não é ele que me vai deitar abaixo. Só estou à espera de poder ir comprar uma cabeça nova ao "continente"

Quando, acho que tenho um problema. O que são os meus problemas ao lado dos problemas dos tantos Mários e Marias deste país?

18 outubro 2010

Domingo(1ª parte) - Il Divo "Unchained Melody"

Ontem(Domingo), acordei de manhã e fui para o lar. Ao chegar ao lar, toco à campainha, sou recebido por uma funcionária e pela D. Irene.

A D. Irene é uma senhora muito franzina. Pequenina, do seu metro e quarenta. Mas, sempre com um sorriso nos lábios. Quem a vê ao longe, não diz que a senhora se "passou". A senhora tem alzeimer, e ela afirma que a irmã é a mãe. O sobrinho é o irmão. Os filhos, temos pena, pois não se recorda de nenhum deles. São 4 ao todo. Na sua forma de ver o mundo, todos eles, são os vizinhos.
A D. irene afirma que tem 40 anos na maior parte das vezes. Numa tarde, a senhora diz que tem 40 anos(idade minima), 55 anos, 68 anos, 89 anos, 63 anos e assim sucessivamente, conforme abre a boca...

Não é a única pessoa, a não reconhecer o filho, marido, amigos ou outro familiar. Graças a Deus, tem familia que a visita.

D. Irene: - O senhor é que é o Santo que me arranjou a luz do meu quarto, ontem à tarde?

Francisco: - Não fui eu, minha princesa...

Eu trato as senhoras por princesas e os senhores por senhores. Ao Domingo, eu sou o chefe. É um jogo, onde eu sou o chefe e as princesas e os senhores estão num baile. No fundo eu levanto o braço e digo: - O chefe levanta o braço e mexe a mão direita.
Todos/as repetem o exercicio. É apenas um exercicio, para "obrigar" as princesas e os senhores a levarem o dedo ao nariz, contar os dedos...
Quem fizer voluntariado ou trabalhar com idosos, este jogo é muito útil, para a mobilidade dos membros e estimular o cérebro.

Funcionária: - Este é o Francisco. O "Anjo", deve chegar mais tarde...

D. Irene: - O Senhor tem o nome de um Santo. Francisco de Assis...

Funcionária: - E como se chama o Anjo?

D. Irene: - (Prontamente) António!!!!!! É um menino tão bom...

Francisco: - Quem é o António? Não conheço...

D. Irene: - Ele está nos domicilios. Só cá está ao Sábados e por vezes ao Domingo.

Francisco: - É funcionário ou voluntário?

D. Irene: - Voluntário à força. Coitado do rapaz...

Quem será este anjo? Existem muitos Antónios, neste país. Será demasiada coincidência, ser o rapaz do Banco Alimentar. Normalmente, estes voluntários(neste lar) à força, são oriundos do bairro social que fica próximo deste lar. Como eles são pobres, pagam as multas, em trabalho a favor da comunidade. Por norma, vão a tribunal por roubo, droga, alcóol ou andarem a conduzir sem carta
Não pode ser aquele rapaz. O António que eu conheci, gosta de teatro, estava bem vestido. Tem os dentes cuidados. Não me parece que seja assim tão pobretanas. Às vezes, as aparências iludem...

17 outubro 2010

Lar - Kelly Family "Santa Maria"

Hoje de manhã, fui fazer voluntariado para o Lar...

- Acreditas na Vida depois da Morte?;

- Acreditas em Deus e no poder Divino?;

- Acreditas no Poder do Amor?;

- Acreditas na Lei do Retorno?;

- E, acreditas em Anjos?

Ao Final da tarde, fui ao cinema ver o filme:

- Comer, Orar e Amar

Agora, vou dormir para "digerir" tanta informação...

08 outubro 2010

Recordações... Vitor Espadinha "Recordar é Viver"

Dizem que somos um livro por escrever, desde o dia em que nascemos. Quem não recebeu um livro em branco? Muito usual, como prenda de aniversário ou de Natal nos ínicios dos anos 90.

Ao longo dos dias, semanas, meses e anos. A dia "sociedade" vai nos dando conhecimento e ao mesmo tempo, vai nos castrando. Aos nascermos, a familia começa por nos informar o que é premitido, e o que não premitido "Faz o que eu digo e não faças o que eu faço..."

Na escola, temos que ser os melhores. Ter as melhores notas e ser um aluno exemplar. Os professores lá nos vão ensinando, até termos a disciplina de Sociologia. Ainda existe esta disciplina?

Aqui aprendemos, o que são os Valores, as Regras, as Normas...
E também aprendemos que o Ser Humano é o "animal" racional que tanto insiste em viver em Sociedade e é o que está à vista...

Na faculdade, passamos a ser "lincenciados", o que designamos por Dr. No fundo, o conceito é estarmos lincenciados para continuar a estudar e não mais nada do que isso.

Hoje, ao estar a fazer a campanha de inquéritos para um Banco da nossa praça. Não posso dizer o nome. Fui informado que os clientes desse banco, não gostam que a associação deste Banco, recorra a empresas de trabalho temporário para a realização de inquéritos de satisfação...

Nunca ouvi tanta gente "burra" num tão curto espaço de tempo:

- Numa escala de um a cinco, sendo um de muito insastifeito, e cinco de muito satisfeito), diga o seu grau de satisfação:
Respostas: De -5; 0; 8, 10 e 100...

- Na mesma escala de um a cinco, onde um(copy past). Qual o grau de satisfação com o seu balcão:
Resposta: São todos uns incompetentes...
Francisco: De um a cinco?
Cliente: - Coloque um muito insatisfaz...

Tia de Cascais: - Estou muito insatisfeita com o Banco. O menino é empregado ou DR?
Francisco: - As duas coisas!!!

Voltando à escola, também aprendemos: As pessoas nascem, crescem, casam-se, reproduzem-se e morrem...

Nascer: - É um facto, se estamos cá é por algum motivo;
Crescer: - Até uma certa idade, sim. Depois, só se for para os lados...;
Casar: - Tanta literatura se escreve acerca deste tema. Anos mais tarde, surge outra palavra a separação. E, a "palavra" de quem é casado tem mais força, que a "palavra" de um solteiro. Tem conhecimento deste facto?;
Reproduzir: - Pois é uma questão de querer e de sorte. Tanta gente que gostaria de poder engravidar e outras são como os coelhos...;
E, por fim morrer. Também, é preciso ter sorte para morrer. Parece uma anedota mas infelizmente, não é...

No lar, quando um idoso morre. Todos os seus bens(roupa, relógio, carteira, etc) são entregues à familia. Se, a familia não quiser nada, uma supervisora leva tudo para a lavandaria, para se fazer uma selecção do que está bom e que pode ficar para o lar. Uma das vezes que estive no lar, não sei se poderei considerar sorte ou azar de ter visto/acompanhado uma "partida" de uma idosa.
Era uma senhora muito simpática dos seus 86 anos. Sempre sorridente, não se importava de estar numa cadeira de rodas, pois, as suas pernas deixaram de lhe obedecer, já fazia muito tempo. A senhora faleceu, e a familia foi chamada ao lar.
A senhora faleceu de manhã e da parte da tarde, já lá estavam todos os pertences da senhora. A familia disse que não queria nada da senhora, apenas que as pessoas do lar, vestissem a senhora e assim foi o que aconteceu...

Da parte da tarde, fui até à lavandia ajudar na separação dos bens. Grande parte da roupa: camisas de dormir, casacos, blusas foram para a máquina de lavar e depois passariam a ser roupa do lar. No meio dos pertences, estava uma mala. Dentro da mala, estavam fotos do seu dia de casamento, fotos dos filhos, filhas, netos, carteira pessoal com alguns poemas. Uma agenda, como se fosse um diário...

Eu não ligo muito ao passado, mas tive vontade de pedir aqueles bens. Os bens acabaram por ir todos para o caixote do lixo. Não havia ouro, dinheiro ou cartões de crédito...

E, assim se acaba o percuso de um Ser Humano...

07 outubro 2010

Sem Palavras - Celine Dion " J`Attendais"

Bom! Para quem ainda não sabe. Eu faço voluntariado num lar, e por acaso(só mesmo por acaso), também ando à procura de uma casa para arrendar...

Sim, os bens imóveis não se alugam, arrendam-se...

Mas, eu não ando com pressa nenhuma para mudar de residência. Quando vejo um anúncio a pedirem 400 euros de renda, por um Tzero. Oh! Meu Deus, onde vive esta gente?

Cada um é livre de pedir o que quiser, mas por favor...

No passado domingo(dia do voluntariado). Estava eu na sala de convivio jogar dominó com alguns idosos. Faz bem a eles, jogarem dominó. Eles movem os dedos e são obrigados a desenvolver o pouco do cérebro, que ainda lhes resta. Já não me recordo, mas a conversa, foi parar ao arrendamento:

D. Graciete: - Menino Francisco! Se quiser, eu posso arrendar-lhe a minha casa.

Francisco: - Mas, ainda não é para já...

D. Graciete: - Quem tem a chave da minha casa, é a minha vizinha do lado. E, se o menino ficar lá. Dava um jeitão, por dois motivos:
1º - O meu filho trabalha muito e vai lá todos os fins de semana, limpar a casa.
2º - Depois de pagar o lar, sobra-me 18 euros da minha reforma. Assim, ficava com um pouco mais.

A D. Graciete, lá me deu um papel com uma letra toda bonita, onde constava o nome da rua, o número de porta e de andar; e ainda o nome da vizinha. Fiquei de ir lá ver a casa, durante esta semana, sem qualquer compromisso...

Ao final da tarde, lá fui eu até Algés, fazer um passeio e ver a casa. Valeu pela intenção. Vou até à rua, e a rua existe. Procuro o número de porta e depois o andar. Até aqui tudo bem.
Quando toco à campainha da vizinha, atende-me uma gaja dos seus 38 anos:

Gaja: - Essa senhora, era a minha mãe, mas já faleceu há 3 anos.

Lá explico o motivo da minha "visita"...;

Gaja: - O filho da D. Graciete, já vendeu a casa há mais de 8 anos. Uns meses, depois da D. Graciete ter ido para o lar...

Já ouvi muitas histórias, de filhos que deixam os pais nos hospitais nas vésperas de Natal e de Ano Novo...

Mas, deixar uma mãe com 18 euros por mês!?

Agora, entendo, o que a minha avó sempre me disse:

"Francisco, somos todos iguais. Nascemos e morremos de igual forma. Fazemos xixi e cócó de forma igual. Só que alguns nasceram com mais dinheiro...
Mas, não significa que levem mais. Quando morremos, deixamos cá tudo."


No lar, os idosos apenas levam a sua roupa(escolhida pelos familiares) e algumas fotos de recordações. Isso mesmo, recordações...

05 setembro 2010

Banco Alimentar - Bonnie Tyler "I Need A Hero"

Nunca imaginei que houvesse tantas associações e pessoas a necessitarem dos serviços do Banco Alimentar.

Desde que surgiu o BA, eu sempre que fui abordado, sempre ajudei. Fosse com um pacote de massa, arroz, óleo ou mesmo azeite...

Agora, estava ali nos armazéns do BA em Alcantâra. Tanta comida para dar e tanta comida já quase com o prazo de validade, a acabar...

Reparei numa caixa de iogurtes, com a data de término nesse mesmo dia, e:

Francisco: - Posso beber um iogurte? A data termina hoje mesmo...

Funcionária: - Nem pense, esse gesto dá direito a um processo disciplinar...

Francisco: - Quoi? Whatyyyy? Como?

É verdade, não se pode mexer. As organizações ao dar para os mais necessitados, não é permitido os funcionários, voluntários comerem ou beberem, mesmo que os produtos estejam fora da validade. Como diz a minha amiga Maria: - É tudo muito giro, mas é cantado...

Também, não deixa de ser verdade que se eu ou alguém ingerisse um iogurte, um sumo, uma bolacha, peça de fruta, o que seja...

Se depois de ingerir, eu me sentisse mal, poderia culpar a empresa doadora pelos danos causados por esses produtos. Daí as empresas optarem por colocar os produtos no caixote do lixo e assim, não terem chatices. No Natal, é super visível a quantidade de comida que vai parar aos caixotes lixo. Empresas que comercializam Bolos Reis, o que seja...

Processo de Entrega de um Bolo Rei(mero exemplo):

1º Quem é que vai entregar?;
2º As condições do transporte para a entrega;
3º Quem recebe a mercadoria?;
4º Local onde se recebe?;
5º Condições do frigorifico, arca figorifica ou armazém...;
6º Quem dá o Bolo Rei a quem e em que condições?;
7º A pessoa que recebe o bolo, consome-o ou vai o levar para casa?

Agora imaginem, que um mendigo recebe um Bolo Rei e apanha uma intoxicação. De quem é a culpa? É da empresa, porque têm mais notariedade e nos dias de hoje a associação da defesa das pessoas e as televisões estão aí. Basta ligá-la...

O mesmo acontece nos Lares. Um idoso come algo e sente-se mal, até porque apanhou frio ou calor. A familia quer logo uma Indemnização.

Esta palavra, é a palavra preferida dos portugueses.

No lar, um funcionário esquece-se de dar um dos comprimidos ao idoso. Sim, um idoso toma imensos comprimidos por dia. Um para isto, outro para aquilo, outro para para o estomago, outra para a dor não sei onde muito bem, mas agora também não interessa nada...

Este funcionário,leva um processo disciplinar e quase que pode ser despedido. Então se for durante a hora do almoço, com as visitas presentes, é logo a palavra-chave: - Indmenização...

Mas, se for um familiar do idoso a levar este a almoçar fora e esquecer de dar os comprimidos ao idoso. Também, não faz mal. À noite, à hora de jantar, o idoso toma os comprimidos da noite e os do almoço. Aqui não há responsabilidade de ninguém...

Afinal, quem é que paga a mensalidade do idoso? Ah! Pois é...

Mais vale ser doente com dinheiro, do que ser doente sem dinheiro...

04 setembro 2010

Opiniões - Lara Fabian "Meu Grande Amor"...

Na Sexta-feira de manhã, cruzei-me no call center com o Fernando por diversas vezes. Trocámos apenas um bom dia, um olá, como estás e um até logo...

Tive que sair a correr do trabalho, para chegar a tempo ao lar. É dia da carrinha ir ao Banco Alimentar (depois faço um post).

Quando regressei ao lar, estava a maior confusão. No lar existem duas modalidades: uma é para pessoas internadas, a outra é que o lar funciona como um centro de dia...

O Tiago, é um rapaz que frequenta o centro de dia(à noite vai dormir a casa dele). O moço têm 35 anos de idade, mas de mentalidade deve rondar os 12/13 anos. É muito bem parecido, mas infelizmente uma queda do sofá abaixo, deixou-lhe maselas para o resto da vida.

A sra d. Joana, é uma senhora muito elegante e muito bem vestida. Deve ter os seus 55/60 anos(não se pergunta a idade a uma senhora), mas que infelizmente a doença de alzeimer "bateu-lhe à porta" muito cedo(perto do 40 anos). A senhora lê o jornal ou revista de há mais de dois meses e pensa que está a lêr o jornal do dia...

O Tiago pediu uma reunião com o Jorge, para lhe pedir autorização para poder namorar com a sra d. Joana. Só que a Joana é tia do Jorge, e este não achou muita piada e resolveu explusar o Tiago do lar. Sendo, que os pais do Tiago não tem possibilidades de o colocarem noutro lugar...

Nos particulares, resovi falar com o Jorge e pedir-lhe para "cair" à terra. Afinal, ambos estavam "controlados", que o miudo estava com as melhores intenções e que ambos tinham necessidades afectivas...

Jorge: - Ouve Francisco! A tua opinião vale o que vale, ou seja, nada... Entendes o que quero dizer? És voluntário aqui, por causa da Flôr. Nunca te esqueças disso. Fui claro?...

Fiquei "puto" da vida. Áo sair do lar, só pensava em ligar à Inês e à Flôr. Mas, dizer o quê? Como contar a minha conversa com o Jorge e porque motivo é que eu tinha que me meter naquele assunto? Acabei por não ligar, mas ligou-me o Fernando...

Fernando: - Tenho saudades tuas. Queres ir jantar?

Francisco: - Sim, eu vou ao take-away perto da minha casa. Queres vir jantar lá a casa?

Jantámos uma fabulosa carne à alentejana. Bebemos um bom vinho e acabámos por dormir juntos. Foi bom adormecer agarrado a alguém. Já sentia a falta de adormecer acompanhado...

Hoje de manhã, tomámos o pequeno-almoço juntos e pensava eu que iriamos para a praia, quando o rapaz me diz:

Fernando: - Francisco, gostava muito de ir para a praia. Mas, tenho que ir para o ginásio, e depois, vou para Évora jantar com a minha irmã, cunhado e sobrinhos...
Encontramo-nos no Domingo à noite ou na Segunda-feira de manhã...

29 agosto 2010

Lar - Barbra Streisand "Memory"

Domingo, é um dia tramado para quem precisa de transportes públicos para se poder deslocar. Lá consegui, chegar a horas...

Não tenho falta, mas também não gosto de chegar atrasado...

Ao Domingo é o dia de visitas, melhor de maior afluência de familiares e amigos aos lares, pelo menos neste. Muitos velhinhos, que recebem visitas dos seus filhos, netos, amigos de longa data, ou simplesmente do vizinho do andar de cima ou de baixo...

Mas, também houve muitos velhinhos que nem UMA visita receberam. Lá fui eu fazer de familiar, amigo. Sentar-me ao lado deles, tocar-lhe nas mãos, fazer um sorriso e dizer algumas palavras como estas: - Como está? O seu vestido é lindo, vai a uma festa? O dia hoje está lindo...

Com dia bonito, cheio de sol ou a chover. Dá igual, pois os familiares não aparecem, mesmo. Moram muito longe, como me disse uma senhora muito bem composta. Todos os Domingos se coloca bem vestida, vai ao cabeleireiro(tem permissão para isso, desde que a cabelereira a vá lá buscar e a vá lá "devolver") para que os filhos e os netos não pensem que ela está um farrapo.

Mas o dia passou e não aparaceu ninguém. Não tem visitas desde o dia de Natal, foi quando lá foi o filho fazer o pagamento da mensalidade. E, como era Natal. Uma auxiliar "obrigou" a criatura a ir ver a mãe...

A senhora com um sorriso lindo, pega-me na mão e diz:

- Não faz mal, os meus filhos e os meus netos lá tem a vida deles. Moram longe. Sabe que daqui à Praça de Espanha, são muito kms...

Creio que a senhora, prefere pensar assim e viver nessa "condição", mas eu não aguentei e escorreu-me uma lágrima pelo rosto abaixo...

- Dá Deus, nozes a quem não tem dentes...

27 agosto 2010

Há dias assim... Agata "Sozinha"

Hoje de manhã, eu acordei super bem disposto. Quando acordo sempre bem disposto e a cantar, é um sinal que o dia que se começa, não irá acabar, assim tão bem...

Quando me sento no meu lugar, reparo que a minha colega de ontem, está na outra ponta da sala e quando me vê, baixa o olhar. Ressentimentos, pensei eu para comigo... Nada disso, ao ligar o computador, aparece-me uma janela(pop ou como se chama aquelas mensagens que surgem no ecrâ do computador)onde a mensagem era:
- Franscico coloque-se em formação e diriga-se ao gabinete da supervisão.

Quando chego à sala, vejo que estão lá 3 pessoas. O meu supervisor, a técnica de recursos humanos da empresa de trabalho temporário e fiquei a saber naquele momento que o terceiro elemento é o director máximo do "call center".

Supervisor: - Que se passou ontem? Quer partilhar connosco?

Francisco: - Nada de especial, como moro longe. Chego sempre em cima da hora. Na hora de sair, vou sempre a correr, pois não moro em Lisboa. A nível da comunicação, não fui rude com nenhum cliente, sempre fui bastante educado e prestativo. No intervalo. Como, só temos 12 minutos de intervalo, aproveito esses momentos para fazer uma chamada telefónica, ir ao wc, beber um café e estar em silêncio...

Supervisor: - Queremos saber a tua versão da conversa com a Sandra?

Francisco: - Sandra?! Ah! A minha colega de formação. Estava eu a beber o meu cafezito, quando ela chegou ao pé de mim e referiu que andava a ser traida pelo o actual namorado, que ele só a queria levar para a cama. Que só tinha tido um homem na vida... (lêr o post de ontem)

Técnica de recursos humanos: - Essa conversa durou quanto tempo?

Francisco: - Não faço a minima ideia. O intervalo é de 12 minutos. Façam o percuso do meu lugar ao wc, depois à copa, esperar que uma das máquinas de café fiquem livres, tempo de saída do café. Depois, chegada até lá fora. Depois retirem o tempo de regresso até ao meu lugar. O tempo que sobrar, foi o tempo de conversa, menos alguns segundos, porque ela não abordou logo o tema...

Supervisor: - Tenho aqui o mapa dos seus intervalos, e o seu intervalo tem sempre a mesma duração, 11 minutos e alguns segundos. O seu tempo de ontem foi de 11 minutos e 24 segundos...

TRH - Francisco, vou lhe pedir que esta conversa, fique só entre nós. Não comente nada com os outros colegas. Pode voltar ao seu lugar e boas vendas...

Director Máximo: - Tenha cuidado, com comentários futuros. Pense, mas não diga o que pensa... (Aperta-me a mão e pisca-me o olho).

Volto em silêncio até à minha sala e posto, acompanhado pelo o meu supervisor. Depois ele dirigi-se para o lugar da minha colega. Ela pára de comunicar e dois saem da sala. Creio que todos os presentes da sala, sabem mais do que eu...

No fim do meu turno. Fico a saber por outras colegas que os serviços da rapariga foram prescendidos. Ontem, ela tinha pedido uma reunião com a supervisão e de direcção. Que no intervalo, me tinha abordado para falar um pouco. Que a conversa, tinha abordado sexo, que eu me tinha insinuado a ela e que ela deveria ter mais homens na vida...

Já dizia um professor meu: - Nunca tentes lixar um colega, pois nunca saberás o dia de amanhã e onde ele estará. O posto dele, pode ser superior ao teu...

Nunca gostei tanto de um login e de um logout...

Hoje, foi o meu primeiro dia de voluntário no Lar. Fui recebido pela Inês e pelo Jorge. Fomos até à sala de estar onde está o bar. Ao entrar, nunca vi tantos velhinhos juntos. Mais parece um depósito de velhos, e no fundo é isso mesmo...

Fico a saber que muitos daqueles velhinhos, sofrem de Alzeimer, Parkison, Esquisofrenia, entre outras doenças mentais...

Muitos daqueles velhinhos, já não tem família, ou que muitos familiares só lá vão pagar a mensalidade, mas que não fazem visitas. O Domingo é o dia das visitas, e é pedido que nesse dia, eu acompanhe os velhinhos à igreja(os que quiserem ir e que não tenham mobilidade). Muitos deles, estão em cadeiras de roda.

Depois sou acompanhado pelo Jorge que me faz o resto da apresentação ao lar. Vou cohecer os quartos, e alguns acamados. Sou levado à lavandia, ao economato, à cozinha. Adorei a D. Aparecida, que é a cozinheira. Como os outros voluntários, já tinham ido para o Banco Alimentar. Vamos até à dispensa, com o objectivo de ir arrumar espaço, para quando eles chegarem do Banco Alimentar...

Ao entrarmos na dispensa, a porta é trancada e começamos aos beijos. As minhas mãos passam por aquele corpo. Que Adónis, quando aquele gajo se despe todo. Vestido, não dava nada por ele...Fizemos amor...

Quando saí do lar, a minha cabeça vinha a mil...

No gaydar, no início da semana, começei a teclar com um rapaz que por coincidência, mora muito perto do lar.

Quando toco à campainha, e um rapaz de olhos azuis e louro me abre a porta...
Reconhecemo-nos de imediato, estivémos juntos em 1993/1994. Mas o destino não quis que ficassemos juntos e cada um seguiu o seu caminho...

Hoje, estávamos ali de frente a frente...

Revivemos os anos anteriores, contámos que caminhos tinhamos seguido, relações mal explicadas e acabadas, rimos, chorámos, até que no final, beijámo-nos e entregámo-nos um ao outro...

Francisco: - Engraçado, depois de tantos anos, aqui estamos outra vez juntos...

Raul: - Uma andorinha, não faz a primavera...

Francisco: - Mas, será que pode anunciá-la?

Dêem as voltas que derem, o Universo volta sempre a colocar as pessoas frente a frente, seja qual fôr o motivo. Mas a realidade é que eles voltam sempre...